Onde os fracos não tem vez

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Logo que terminei o ensino médio, passei por grandes decepções, acredito que como a maioria dos jovens. A sensação que eu tinha é que tinha escolhido errado, o curso errado, o namorado errado, as roupas, cor de cabelo. Tudo tava fora do lugar, e o que me manteve firme (nem tão firme assim) foi poder escrever e me abrir, o que muitas vezes me fazia ser julgada, descrita como uma exposição desnecessária. Até que era, mas mais ainda um tratamento inevitável e gratuito.

Sempre fui a ovelha negra da família, a matraca, a envolvida com coisas malucas, a apaixonada por criatividade. E isso claro, me fazia muitas vezes ser mal interpretada, escanteada, e até admirada, porque alguns me julgavam uma rebelde sem causa, que eu não era. Mas vocês sabem, rebeldes sempre atraem algum tipo de atenção, e comigo não foi diferente. Eu não sei se devia fazer essa volta ao passado, porque provavelmente não é saudável, e já pude aprender o que tinha para aprender com ele. Da forma mais dolorosa? Sim. Mas também da melhor forma: Errando.

A verdade é que passei o dia doente, e me senti mal por ter perdido um dia de trabalho, um dia de boas interações nas minhas redes sociais, e perdi um sorriso. Em nenhum momento, eu sorri. Aliás, sorri quando na hora de me medicar, o médico perguntou sobre ser alérgica, e me disse: “- Nossa, a AS e Dipirona? Com tanta sorte assim, já pensou em jogar na Loto?”. Achei engraçado. Fiquei lá sentada nebulizando, reclamando do Decadron (remédio que dá coceira no faniquito) e por último agradecendo não ser nada mais que uma gripe muito tensa, quase confundida com bronquite. Passado o hospital, me deitei e acordei com a imensa vontade de escrever, nada que falasse de moda, de tendências, de novidades. Eu queria falar de mim, dos meus sentimentos, da minha solidão incompreendida.

Pois bem, aqui estou eu, mantando as saudades, sem fazer muito sentido, pra variar. Saudade não precisa ser triste, pode ser só saudade. E eu acordei assim, sentindo saudade de ser mais nova, de poder ser menos responsável, de menos sorrisos calculados, de fazer faxina por diversão e não obrigação. Saudades de nadar pelas raias, competir pelas piscinas, e abraçar amigos com cheiro de cloro. Senti a nostalgia de uma novidade emocional, de bilhetes no meio da aula, de declarações anônimas. De cartas românticas, de músicas apaixonadas. De me apaixonar diariamente, por tudo.

Saudades de sair para pegar o carro recém comprado e passear sem rumo, sem pensar nas fotos, nas roupas. Saudades do cheiro de liberdade que emanava dos meus sonhos, eu poderia ser qualquer coisa! Ainda posso ser, na verdade, mas a segurança de permanecer o que me tornei, tem me deixado assim, meio covarde. Ir só para praia, ouvi músicas melada de areia, de caipirinha ou de amor. É uma nostalgia que ao mesmo tempo que me esvazia, me preenche, me lembrando tudo pelo que já passei, aonde cheguei, e aonde serei levada.

Percebi recentemente, que antes eu primeiro me apegava a letra das músicas, se elas me traduziam, me prendiam e me mexiam. Hoje ando tão desligada, que no meio da música, noto que não ouvi uma única palavra e que a batida é chata e irritante, e só quero desligar, sem terminar mesmo, como uma conversa inacabada. Eu sinto saudades, de não ter que me provar o tempo todo mais forte que sou, mais engraçada que sou, mais bonita, mais fitness, mais feliz. Eu sinto saudades de ser livre, sem me preocupar com o amanhã. Afinal de contas, daqui a vinte anos, eu posso estar escrevendo o mesmo texto, dizendo o quanto tenho saudades de tudo isso de hoje, e aí, mais uma vez, já era, gone.

Mantenha-se forte, mesmo que você não seja, o subconsciente toma conta do resto. Se mantenha FORTE! porque a vida, os amores, as decepções, as cartas que não chegaram, os convites não enviados, o bronze cancelado, a geladeira não atrativa, o quarto escuro, a cama vazia. Tudo isso sempre vai doer, mas se você se manter forte, você pode ver a beleza de tudo:

O convite poderia ser ruim, a geladeira cheia de besteiras, ia te engordar demais. As decepções ensinam a escolher melhor, as cartas não remetidas, vão te fazer escrever para outras pessoas, que te correspondam. O quarto escuro, vai aos poucos te ensinar a não tem medo, é só a ausência de luz, que o dia trará amanhã. Os amores, virarão desamores, e te mostrarão os defeitos que você não é capaz de aceitar. A cama vazia, vai te mostrar o que em síntese um antigo ditado já falava há muitos anos: Antes só que mal acompanhada.

Não é tristeza, é só saudade. Talvez um pouco de tristeza, também.

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7 comentários sobre “Onde os fracos não tem vez

  1. Yara disse:

    Amei o texto,me identifiquei muuuito com ele,passei pelas mesmas coisas,erros e dúvidas!
    E você cada dia mais linda e talentosa 👏👏👏

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  2. Giovanna disse:

    Me encontrei nesse texto, Camila! Você traduziu tuudooo o que sinto, e acho que outras pessoas também! Sem tirar, nem pôr! Amei! Acho que vou até guardá-lo, para nos momentos de dúvidas relê-lo!
    Beijos.

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    • Que bom Gi!

      Fico feliz em ter contribuído, escrever tem dessas coisas, né? A gente vai se identificando, e um dos motivos que eu adoro é isso, também me encontro em vários textos de outras pessoas.

      beijos e obrigada :*

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